DA PARTE PESSIMISTA
A cada instante se trava uma luta entre o bem e o mal em todas as escalas métricas imagináveis. Deus luta contra o Demônio, o agricultor luta contra os empresários que querem roubar suas terras, anticorpos lutam contra bactérias, energias positivas e negativas se colidem.
Não é verdade que todas essas forças fazem parte de uma mesma guerra do bem contra o mal. Essas lutas travadas cotidianamente acontecem independentes, longe das outras e sem conhecimento dos grupos. Porém, há uma força que derrotará bem e mal, não importa o vencedor da batalha local, uma força que amedronta por sua inexorabilidade, uma força que não é.
Quando há importância em algo? Por quê? A resposta dessas questões ajuda a conhecer essa força. Uma proposta de resposta é: algo é importante quando existe, ao menos em idéia. Porque existir é a primeira condição para que algo possa ter um predicado qualquer, e a condição para que a frase “João é importante” seja verdade é, antes de tudo, que João exista. Tal força é não possuir coisa alguma, como um predicado, por exemplo. Em seu âmago se quer o tempo existe, mas este(o tempo) parece dever alguma coisa à força, pois é conivente a ela e colaboradora do seu “projeto”.
A força tira seus predicados, e um sujeito sem predicados desaparece. Qualidades como bom ou ruim passam a não serem importantes para um sujeito específico ou para sujeito algum, pois a força pode também retirar o sujeito antes dos predicados, e sem sujeitos também não existem predicados. A força é devoradora, e como se vê o que é pior, nem é boa nem ruim, o que impede a nós que só compreendemos essas duas potências de assumirmos seu partido e nos aliarmos, ou rebelarmos. Quando a força aparece em meio aos humanos não lamentamos os atingidos, ao contrário, tememos ser atingidos e nos reunimos em comoção vendo que mais uma vez ela aparece e está bem perto quando nós pensávamos que havia nos esquecido.
A força tem um nome, mas não deve ser entendida por esse nome. Ela deve ser entendida no único contexto que podemos, isso é, chegando perto da parte dela que já está nos mastigando e engolindo nossos predicados, a parte dela que está dentro de nós. Se seu nome é pronunciado ela faz o que mais gosta, desliza por todos como insignificante, sem sentido, sem compreensão, sem ser causadora de dor, sem título bom ou mau, a força se atendesse alguém atenderia pelo nome “Nada”, ladrão de predicados e possuidor de nenhum. Se você assumiu a resposta à questão da importância agora tende a pensar em mais duas, o Nada existe? Ele é importante?
Quanto ao tempo, que não existe no Nada, ele é uma esteira rolante que carrega tudo ao tão famigerado(nesse texto) “Nada”, e esse carregamento está no âmbito onde as coisas ainda são classificadas como boas ou más, mas isso que o tempo faz é bom ou não? Se carrega ao nada deve ser mau, mas isso leva a pensar no Nada como mau também. Mas ele não é dessa classe é porque não é bom nem mau, então o que ele “faz” com os sujeitos deve ser algo não importante, ou os sujeitos que não são importantes? Quando algo é importante mesmo? Em minha fé prefiro acreditar que o Nada está tentando me enganar com as mesmas sutilezas que tem no seu nome, e como quando comecei o texto continuo temendo o nada devorador.