Saturday, May 29, 2010

Mesmo sabendo dos seus onze dedos

Bom Tainah, faz tempo que quero te dizer algo. É sempre difícil começar, mas toda vez que se diz isso o início já foi promovido, e assim, dizer “é difícil começar” é uma ótima forma de começar, e diria até uma forma fácil de começar. Pensando bem, nem sempre é tão difícil assim começar. De todo modo eu já comecei, mas não exatamente a dizer o que queria. Isso é estranho, pois parece que comecei e não comecei, o que seria impossível. Mas é só uma contradição aparente. Sei disso Tainah, porque sou lógico. E sou lógico porque precisava controlar meu déficit de atenção. Talvez você não tenha notado ainda, mas eu mudo muito de assunto, e peno muito para chegar no que interessa de verdade, e precisamente por essa razão, eu recorri à razão, digo, à lógica. Queria estruturar minhas ideias, e ser atento a tudo que falo. E sou! Mas é um problema ser um lógico com déficit de atenção, prestar atenção em tudo que se fala faz com que se torne necessário comentar tudo que se diz. Eu estou sempre comentando minhas afirmações! Espera, na verdade, cada comentário sobre uma afirmação é uma nova afirmação, nesse caso se eu estivesse sempre comentando minhas afirmações eu estaria até hoje fazendo apenas um comentário, de um comentário, de um comentário … de um comentário da primeira afirmação que fiz, nesse caso eu acho que não é sempre que eu comento minhas afirmações. Em todo caso, o período anterior é um comentário do que vem antes dele, e este período é também um comentário do anterior (ok, parei). Falei alguma coisa sobre déficit de atenção e ser atento às minhas frases. É algo que gostaria de comentar, mas entendo que não devo fazer isso pela sua cara de inquietação.

1 – Vamos ao que interessa então?
2 – Ao que interessa. Digo, o que eu acho que pode te interessar, sem pretensão, é claro.
3 – Prossiga.
4 – Eu sei que você tem onze dedos, mas, quero te conhecer melhor.
5 – Eu tenho o que?!
6 – Por favor, não fique brava. Calma!
7 – Você deve ser louco!
8 – Não, louco não. Tenho déficit de atenção, eu já disse isso?
9 – Você disse que eu tenho 6 dedos em uma mão, disse que queria me conhecer melhor e não é maluco?
10 – Não! Eu não disse que você tinha 6 dedos em uma mão. Disse que tinha onze dedos. E acho que ainda tem.
11 – Ah, você insiste nessa insinuação de que eu tenho 11 dedos.
12 – Eu não insinuei nada, eu afirmei. E note uma coisa, essa afirmação eu não comentei, embora você esteja fazendo isso. Você é uma lógica com déficit de atenção Tainah?
13 – Não sei porque ainda não fui embora. Mas não fuja do assunto, você vai me explicar essa sua asneira direitinho.
14 – Tem razão, desculpe. Não mudo mais de assunto. É uma das minhas características enquanto DDA. DDA é uma das abreviações para o déficit de atenção, mas já está meio em desuso agora é TDAH. Gosto mais de DDA.
15 – Eu só vou dizer essa vez. Volte ao assunto A-GO-RA.
16 – Foi mal. Onze dedos, tem razão.
17 – Ah vá à merda. Então que dizer que eu só tenho onze dedos, é isso seu retardado? E quem te disse isso?
18 – É, mais uma vez você está botando palavras na minha boca, eu não disse que você tem apenas onze dedos.
19 – Então eu agora sou louca e entendo as coisas erradas para botar palavras na sua boca.
20 – Não, claro que não estou dizendo que você é louca e entende as coisas da forma errada. Eu estou dizendo apenas que você entende as coisas da forma errada.
21 – E qual é a diferença?
22 – A diferença é que eu não disse que você é louca. Só disse uma das partes da conjunção. Na verdade nem disse, só pensei.
23 – Então pode ter pensado também que eu sou louca.
24 – Sim, é claro que eu posso ter pensado também que você é louca, tudo que é possível é passível de pensamento, mas nem tudo que é passível de pensamento é possível, eu acho.
25 – Então pensou que eu sou louca.
26 – Não disse que pensei que você é louca, só disse que poderia ter pensado.
27 – Acha então que eu sou burra e esqueci a ração dessa conversa?
28 – Pelo contrário, acho você muito inteligente. E tudo bem, podemos voltar à história dos onze dedos.
29 – Como diz que quer me conhecer fazendo um insulto desses?
30 – Sei que não é o jeito certo de dizer que se quer conhecer alguém fazendo um insulto a essa pessoa. Mas não era isso que eu pretendia Tainah.
31 – Ah tá, você queria me dizer que eu tenho onze dedos, mas não queria me ofender. Meio estúpido.
32 – E o que tem de errado em dizer que você tem onze dedos?
33 – Sua mãe deve ser uma bela de uma puta. – Acho que se Tainah existisse não diria isso.
34 – Mamãe?!
35 – Tudo bem, sua mãe não tem nada a ver com isso – Ah, ok, foi só um surto de Tainah – tenho que me concentrar no idiota que diz que eu tenho mais dedos que os outros.
36 – Não é bem assim, o fato de eu dizer “não disse que você tem apenas onze dedos” não implica que eu esteja dizendo que você tenha mais dedos que os outros, de fato pode ter até menos.
37 – AAAHHH! Sua mãe tem onze dedos! – Parece que ela ficou realmente irritada.
38 – Tem sim.
39 – E você tem onze dedos, seu idiota.
40 – Tenho.
41 – E seu pai tem onze dedos.
42 – Bem, tinha.
43 – É um problema de genético?
44 – Acho que não chega a ser um problema, a maioria das pessoas que eu conheço são como nós. Só que provavelmente é genético. Além disso, As que não são também não considero como se tivessem um problema.
45 – Mas você não disse que tem onze dedos junto com sua família?!
46 – Sim, tenho.
47 – E disse também que as outras pessoas eram assim?!
48 – Sim, disse.
49 – Então! Que palhaçada é essa?
50 – Que palhaçada?
51 – De dizer que a maioria, que na verdade tem vinte dedos, tem onze.
52 – E quem tem vinte não tem também onze?
53 – Tem.
54 – Então.
55 – Você queria dizer desde o início que uma vez que eu tenho vinte dedos eu obrigatoriamente tenho onze?
56 – Sim, era isso que eu queria dizer desde o início.
57 – Mas eu pensei que você tivesse dito no início “ Eu sei que você tem onze dedos, mas, quero te conhecer melhor”
58 – Foi isso que eu disse.
59 – Nesse caso você quis dizer que “ Eu sei que você tem onze dedos e quero te conhecer melhor”.
60 – E não é a mesma coisa? Eu só estou afirmando que quero te conhecer melhor ao mesmo tempo que estou afirmando que você tem onze dedos.
61 – Tá bom, eu admito que as frases dizem a mesma coisa nesse caso. Por outro lado, o que você disse foi apenas que eu tenho vinte dedos, mas, todo mundo tem vinte dedos.
62 – Sim, a maioria das pessoas tem.
63 – E a razão desse papo é me dizer que eu sou igual aos outros? O que exatamente você quer dizer com sua afirmação?
64 – É que você é igual aos outros, mas se eu quero te conhecer, e não quero conhecer os outros, então você não é igual aos outros. E isso é uma contradição.
65 – Assim, a conclusão a que eu devo chegar é que você está apaixonado por mim?
66 – Bem, de uma contradição tudo se segue.

David Gomes

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Saturday, May 15, 2010

… _ _ _ …

Um dia alguém ajuda,
e nesse dia a ajuda vem
de alguém
que quer ser ajudado também.

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Friday, March 19, 2010

Hoje eu fui um homem bom

Essa é a única página de um diário já escrita por este locutor. O que torna a ação de escrevê-la imensamente difícil, e significativa. A superação dessa barreira se deve ao dia, e o diário tem a razão de ser devido a um dia. O dia aqui tratado é particularmente estranho. Sentimentos estranhos, vontades estranhas, frases estranhas e fatos estranhos. Um dia como outro qualquer da semana com início difícil, mas fim assustadoramente conclusivo. Pela primeira vez na vida um dia não foi uma etapa, mas terminou como uma conclusão, definiu. Hoje me apaixonei por o que faço estando próximo dos meus alunos e do meu conteúdo em sala. Dei aulas como nunca falando coisas que não esperava e sem esperar respostas favoráveis que inevitavelmente vinham. Metodologia da ciência, idéias filosóficas contemporâneas, lógica e introdução à filosofia. De turma para turma cumprindo um objetivo e conhecendo Gente. Em um salto notório dessa produção tenho que falar que tive uma noite espetacular, diferente em tudo. Na aula final que se destinava ao início descobri a importância da declaração “tudo é água”. Descobri o que motivou o surgimento da filosofia justamente na etapa de minha carreira onde eu deveria ensinar isso. Fui surpreendido pela paixão de um aluno que antes desprezava a Filosofia. Quase chorei pronunciando a frase inicial da filosofia e compreendendo o seu conteúdo e significância. Fiz se apaixonar pelo conteúdo um aluno, que por acaso entrou em minha sala e decidiu ver uma aula qualquer. Tive medo da forma como esse aluno me abordou e quis saber o que era que acontecia ali. Senti medo de morrer ou quase certeza de que iria acontecer quando tive noção de que a missão estava sendo cumprida. Voltei a ter novidades ao reencontrar um amor inconsolavelmente perdido até dentro de mim e conhecendo alguém que merecidamente pode ter tomado o meu lugar, ou já o de outro. Perdoei. E mais uma vez senti que era a conclusão. No caminho não bastando acompanhei pessoas de bem com medo de voltarem só e que esperavam por uma companhia. Como se tivesse tomado estriquinina tive certeza de uma morte ainda no fim desse dia. Dia tão estranho e com sentimentos tão inexplicáveis nem um homem que viveu por muitos anos deixaria de narrar. Nesse dia fui bom, e como o bem é a conclusão inevitável e o lugar para onde todas as coisas tendem este dia também é o fim. Peço a todos que dêem continuação às minhas idéias, aquelas com que concordem, de uma forma como não tive tempo. Até o dia em que sejam bons.

Se for importante: eu tive apnéia letal do sono, antes ouvi “entre a estrela, “o inverno” das quatro estações de Vivaldi e “Viva la vida” de Coudplay.

Ps: Também tive tempo de explicar para minha irmã a concepção aristotélica de justiça. Lembre-se de nunca esquecê-la.

David.

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Wednesday, December 23, 2009

Esquecimento

E sempre digo aconselhando:
Nada dura para sempre.

E sempre digo amando:
Nosso amor vai durar para sempre.

E sempre digo abandonado:
Esse sofrimento vai durar para sempre.

E sempre digo sozinho:
Essa solidão vai durar para sempre.

Eu nem sempre amo, sou abandonado e fico sozinho.

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Thursday, November 26, 2009

Oração para ela voltar ao MSN.

Poesia é atividade sem sentido.
Pois de que vale a pureza de um verso?
A rima rara, a rica rima?
Se invés de tuas palavras tenho o inverso.
E de que vale a métrica alexandrina?
Se prendo o assunto no meu peito comedido.

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Tuesday, October 27, 2009

Surto

Violam, violão, violariam e violarão. Só vendo e não vendendo. Missão comprida é missão não cumprida. Nunca confunda, e algumas vezes com baladeira. No tienes cita con tu novia? Sim, me excito. Tuyo you ou brucutu? Pará, para, pára.

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Tuesday, September 22, 2009

Flerte com Bandeira.

Quanto o pranto amargo que correu turvou e escureceu o olhar que Deus me deu.
Embora morra incontentado bendigo como um dom sagrado repousar meu olhar cansado.
Porém já tudo se perdeu, e não há como confortar um coração que a dor venceu.

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Tuesday, June 16, 2009

Encontro poético com a morte

Gostei da idéia, mas deve ser mudado.

Tendo entrado na alcova da morte ouvia assustado “nunca mais”, “nunca mais”. Pronto e certo de não ter outra saída encarei a senhora da noite.

Não é tua hora – disse a morte.
Seja a hora de quem for é a minha também, é sempre por mim que os sinos dobram  -  disse eu, certo de que ela entenderia que eu sou a humanidade, o continente africano.
Não é tua hora – disse a morte.
E eu fiz a proposta: Subsistir senhora, isso é que importa. Não te canso me escondendo e correndo de ti, tu não me cansas me procurando dia e noite. A vida não é de se brincar assim de esconder. Um belo dia te encontro.
Não é tua hora – disse ela outra vez.

Saí da alcova convicto de que ela levaria em conta a sugestão. No primeiro passo para fora morri. Em menos de dois minutos já era minha hora. Poderia ter aproveitado melhor. Com um poema, quem sabe? Nunca em vida cheguei a pensar como queria que fosse meu último poema.

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Tuesday, March 17, 2009

O supérfluo é essencial para mim. Não o supérfluo fútil, não o que sobra de comida, a roupa que se compra sem necessidade, não o carro mais novo ou a riqueza que se ostenta. O supérfluo à matéria, esse sim é essencial. O “boa noite” inútil antes de dormir, o inútil “boa sorte” antes das provas, o inútil “me espere” dos enamorados. É essencial, é necessário ter coisas dispensáveis como estas.
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Sunday, March 15, 2009

DA PARTE PESSIMISTA

 Esse é do primeiro ano de faculdade, então vamos pegar leve pessoal.

A cada instante se trava uma luta entre o bem e o mal em todas as escalas métricas imagináveis. Deus luta contra o Demônio, o agricultor luta contra os empresários que querem roubar suas terras, anticorpos lutam contra bactérias, energias positivas e negativas se colidem.

Não é verdade que todas essas forças fazem parte de uma mesma guerra do bem contra o mal. Essas lutas travadas cotidianamente acontecem independentes, longe das outras e sem conhecimento dos grupos. Porém, há uma força que derrotará bem e mal, não importa o vencedor da batalha local, uma força que amedronta por sua inexorabilidade, uma força que não é.

Quando há importância em algo? Por quê? A resposta dessas questões ajuda a conhecer essa força. Uma proposta de resposta é: algo é importante quando existe, ao menos em idéia. Porque existir é a primeira condição para que algo possa ter um predicado qualquer, e a condição para que a frase “João é importante” seja verdade é, antes de tudo, que João exista. Tal força é não possuir coisa alguma, como um predicado, por exemplo. Em seu âmago se quer o tempo existe, mas este(o tempo) parece dever alguma coisa à força, pois é conivente a ela e colaboradora do seu “projeto”.

A força tira seus predicados, e um sujeito sem predicados desaparece. Qualidades como bom ou ruim passam a não serem importantes para um sujeito específico ou para sujeito algum, pois a força pode também retirar o sujeito antes dos predicados, e sem sujeitos também não existem predicados. A força é devoradora, e como se vê o que é pior, nem é boa nem ruim, o que impede a nós que só compreendemos essas duas potências de assumirmos seu partido e nos aliarmos, ou rebelarmos. Quando a força aparece em meio aos humanos não lamentamos os atingidos, ao contrário, tememos ser atingidos e nos reunimos em comoção vendo que mais uma vez ela aparece e está bem perto quando nós pensávamos que havia nos esquecido.

A força tem um nome, mas não deve ser entendida por esse nome. Ela deve ser entendida no único contexto que podemos, isso é, chegando perto da parte dela que já está nos mastigando e engolindo nossos predicados, a parte dela que está dentro de nós. Se seu nome é pronunciado ela faz o que mais gosta, desliza por todos como insignificante, sem sentido, sem compreensão, sem ser causadora de dor, sem título bom ou mau, a força se atendesse alguém atenderia pelo nome “Nada”, ladrão de predicados e possuidor de nenhum. Se você assumiu a resposta à questão da importância agora tende a pensar em mais duas, o Nada existe? Ele é importante?

Quanto ao tempo, que não existe no Nada, ele é uma esteira rolante que carrega tudo ao tão famigerado(nesse texto) “Nada”, e esse carregamento está no âmbito onde as coisas ainda são classificadas como boas ou más, mas isso que o tempo faz é bom ou não? Se carrega ao nada deve ser mau, mas isso leva a pensar no Nada como mau também. Mas ele não é dessa classe é porque não é bom nem mau, então o que ele “faz” com os sujeitos deve ser algo não importante, ou os sujeitos que não são importantes? Quando algo é importante mesmo? Em minha fé prefiro acreditar que o Nada está tentando me enganar com as mesmas sutilezas que tem no seu nome, e como quando comecei o texto continuo temendo o nada devorador.

Posted by davi de tal in 16:38:22 | Permalink | Comments Off